Manifesto Altar da Terra
Sementes de Justiça
Essa água que cai do céu, que brota do chão, vira seiva, vira ar, vira sangue — é nossa mãe. Essa rede de cuidado invisível que nos nutre e sustenta, são nossas mães. E ao lembrar quem são, e onde estão, lembramos quem somos e para onde vamos.
O sistema que hoje governa o mundo o faz a partir do abuso das mães e suas crias. Mascarado de glamour por séculos, a verdade fica cada vez mais evidente porque estamos prontos para retomar as rédeas de nossas vidas.
O sistema que queima florestas para abrir pastos assassina lideranças indígenas e quilombolas que defendem seus territórios. O sistema que contamina o rio com garimpo ilegal bombardeia comunidades inteiras para criar condomínios de luxo. O sistema que controla a terra controla o corpo — e usa a violência doméstica, o feminicídio, o estupro e a pedofilia como ferramentas de manutenção dessa ordem.
A criança abusada, a mãe paralisada, a floresta queimada — são o mesmo crime, cometido pela mesma mão, contra a mesma vida. A mãe indígena cujo território é invadido, a mãe negra confinada na periferia que a abolição sem reparação construiu, a mãe branca em burn out dentro de relações tóxicas com pais, chefes e companheiros, a mãe-bicho cuja cria é arrancada, a mãe-floresta cujo útero é queimado, a mãe-água cuja veia é envenenada — todas carregam a mesma ferida. A criança abusada, a mãe paralisada, a floresta queimada — são o mesmo crime, cometido pela mesma mão, contra a mesma vida. Não se tratam de tragédias pontuais, separadas — mas de um único genocídio da natureza mãe. Uma lógica que continua se reproduzindo a cada instante em que estamos ausentes do aqui e agora.
Fomos educados a nos ver como estranhos à terra que nos sustenta e aos povos que vivem integrados a ela. Essa separação estratégica tem nome, tem data, tem uma história que não está nos livros da escola, e nem por isso deixa de ser verdade. A divisão de terras que existe hoje na terra Pindorama, Abya Yala, que chamamos de Brasil, América, foi construída sobre sesmarias — grandes porções de terra que a Coroa portuguesa concedia formalmente a quem exterminasse povos originários que por milênios a ocupavam. No Sul desse país, até o início do século XX, pares de orelhas de indígenas eram entregues em troca de metro quadrado. E o mais cruel é que o governo atual que chamamos de democrático legitimou essas posses sem jamais reparar — e segue lucrando com a mesma lógica, leiloando aos quatro ventos o que resta.
Entre 1452 e 1493, três bulas papais autorizaram as coroas europeias a escravizar povos considerados não-cristãos e tomar suas terras em nome da fé. A chamada Doutrina do Descobrimento foi a base teológica que legitimou séculos de pilhagem do Sul global, e permanece inscrita até hoje no direito de propriedade que parece tão inquestionável. Em março de 2023, após décadas de reivindicação dos povos originários, o Vaticano formalmente repudiou essa doutrina. Mas o reconhecimento verbal de um erro no passado não muda a desigualdade social que vivem ainda hoje como consequência desse crime contra a humanidade. A reparação factual, que é a devolução material do que foi tomado, em termos de posse de terras e os cofres de ouro e arte sacra que sustentam o luxo de países inteiros, permanece intocado.
A demarcação dos territórios indígenas é o direito básico pelo qual estes povos estão lutando a séculos, mas não é mais o suficiente. Todas as terras com nascentes de água, rios, florestas, mangues, precisam ser reconhecidos como seres vivos que tem o direito de serem zelados por guardiões que saibam conviver harmonicamente. A raíz da miséria humana, da fome, das favelas, da criminalidade, do adoecimento em massa, precisa ser reconhecida na cultura que se vangloria da beleza dos palacetes e catedrais. Essa conexão precisa ser feita e àqueles que ainda tem fé, precisam ter coragem de questionar as incongruências de suas crenças e assumir como nosso modo de vida tem mantido essas estruturas no poder.
Ecologia e sustentabilidade não podem mais ser movimentos separados da reparação histórica do direito à terra. E assim tampouco o autoconhecimento profundo, a espiritualidade que desperta para a consciência de unidade. Precisam urgentemente se tornar um movimento uno, porque a divindade, independe da cada crença, criou os nossos corações, olhos, mentes, mãos e pés para estar na terra e fazer o bem.
Honramos cada filho da terra tornado número nessa economia cruel. Cada aldeia destruída, cada sabedoria que a história oficial distorceu e transformou em pecado. Chorar esse luto é acordar a memória viva de tudo que deveria existir, para apoiar o que resiste. A raiva é necessária para dizer basta — para reivindicar os direitos sagrados de ser humano, de existir em paz no colo de sua mãe, e defendê-lo. Precisamos deixar fluir essas emoções — o choro, o grito — até se transformem em canto e clamem a transformação. Esse é o chamado da Psicologia da Terra. Uma metodologia de cura para realizar o máximo potencial criativo humano enquanto guardiões da natureza.
Para isso precisamos voltar às fontes — à natureza, às águas, ao corpo. Para limpar todo registro de que o corpo é pecaminoso, de que a terra é uma dimensão separada de Deus, de que o sagrado requer o sacrifício da matéria. Foi essa ideia que naturalizou a escravidão do povo e que instalou uma espiritualidade que busca a paz pelo afastamento do mundo, no desapego ás emoções, na fuga do que é denso, social e político.
Estamos prontos para afirmar com orgulho que a terra é sagrada, que as águas de Oxum são santas, que são o sangue fértil dos ventres de suas filhas, e que sua carne tenra é um portal de reconexão com a Deusa. É a origem do amor, dentro de nossas casas, e deve ser tratado com toda a reverência que tem sido dedicada por tempo demais a altares sangrentos.
Antes de se tornarem religiões, os Orisás eram Ifá, a sabedoria da natureza que guiava a relação íntima do povo Yorubá com seu ecossistema, na região que conhecemos hoje como Nigéria. Trazida pra o Brasil nos corações de milhares de africanos escravizados, impedidos de se relacionar livremente com a terra, esse povo concentrou a força de seu amor á simbolos personificados como santos, estrategia para manter a alma viva. Na beleza de suas danças e cantos, a lembrança do amor livre, o amor da mãe terra que dá tudo para nossa alegria, para o nosso prazer.
Nesse corpo de conhecimento ancestral fui iniciada como sacerdotisa, com a responsabilidade concedida pelas Grandes Mães de resgatar a espiritualidade que liberta a reverencia a terra através do corpo. Com toda gratidão e todo respeito as tradições que preservaram o conhecimento ancestral, digo que é urgente aplicar nossa magia onde ela é requerida e colocar nossa devoção como oferenda aos altares vivos dessa terra. Nos reaproximar do verdadeiro altar de Iemanjá/Olokun que são os oceanos profundos sendo intoxicados pelas industrias. O altar de Oxum que é o corpo da mãe indígena banhando sua cria no corpo do rio, ainda cristalino. O altar de Oxossi que é pai guerreiro protegendo as medicinas das matas e dos animais. O altar de Onilê é a terra que se faz alimento sob nossos pés. Reverenciar imagens de Orixás enquanto seus corpos concretos no mundo são destruídos com a nossa complacência é uma dissonância cognitiva que adoece filhos de santo bem intencionados, pois impede que o potencial criativo humano divino se realize na sua plenitude. Cada Ori vem saudar a terra, a se tornar Orisá.
A guiança que recebi para realizar meu sacerdócio, resgatando os códigos matriciais encerrados pelo patriarcado, é de oferendar de volta à terra nada mais nada menos que o sangue menstrual de suas filhas, pulsando de úteros vivos, orgásmicos, e o que for necessário para que isso volte a ser uma realidade compartilhada e não um privilégio entre poucos. Que meu serviço seria democratizar o autoconhecimento somático baseado na divina natureza, devolvê-lo aos seus herdeiros para que se empoderem de sua verdadeira origem, e garantir que aqueles que dessa sabedoria bebessem seriam parte inevitável de um movimento de reparação histórica.
O Altar da Terra recebe e distribui recursos para reconhecer, fortalecer e multiplicar os verdadeiros Altares onde as forças da natureza exercem o dom divino de cuidar através de seres humanos. Na eARTh Escola da Terra 35% do lucro gerado é distribuído em 7 altares de 5% — seis dedicados a guardiões da biodiversidade, o sétimo dedicado á Fonte Maria das Frô iniciativa autoral deste manifesto, que financia a multiplicação de novos Templos da Terra: territórios soberanos, cuidados por guardiões que protegem a inocência das crianças de todas as espécies.
Os 6 altares vivos são parte do meu ecossistema pessoal de aprendizagem e inspiração e também são universais, integrando o cuidado do reino humano, animal, vegetal. A Mãe Awapay guardiã da cultura do Povo Shanenawa no Acre, transmissora da cultura originária da floresta amazônica. O Santuário das Búfalas de Brotas, acolhidos aqui como os mestres animais que são. A UIPA SP, que defende os animais domésticos violentados na cidade de pedras. A ONG internacional Save The Children, que cuida de crianças em zonas de guerra, porque não podemos naturalizar o genocídio acontecendo hoje na Palestina e Sudão. O Templo da Terra em Juquitiba — território dos sonhos de Francisco, santo menino agroecológico e seus bichinhos resgatados, em processo de consolidação. A Casa Quilombo Aldeya em Salvador — espaço de cuidado e aprendizagem coletiva para uma comunidade em processo de resgate e fortalecimento de raízes ancestrais.
Precisamos formar um círculo de cuidadores ao redor de quem cuida. No centro, as vidas mais vulneráveis. Ao redor, quem tem mais e pode abraçar mais. Círculo por círculo, esse é o núcleo vivo do altar da terra. Acreditamos na generosidade humana para fazer essa revolução acontecer. O Templo da Terra em Juquitiba é o primeiro território liberto da lógica de posse individual para a lógica do cuidado — e é o milagre que queremos multiplicar. As terras pertencem à própria Terra e ao invés de donos, reconhecemos seus guardiões.
Quando destinamos parte do que recebemos para fortalecer quem guarda a vida, estamos fazendo ebó no altar vivo onde os orixás habitam — e nos tornamos também canais das mesmas forças que invocamos. Essa é a lógica da real prosperidade: ao apoiar os guardiões da natureza, entramos em reciprocidade com ela, e o que flui através de nós se multiplica.
Os cauris — conchas sagradas que por séculos serviram de moeda de troca em culturas da África e das Américas, e que ainda repousam em nossos altares como símbolo de prosperidade — se atualizam nos códigos de hoje quando se tornam PIX, feito em espírito de reverência a sustentação do amor á terra.
Todos os dias temos a oportunidade de nos alinhar com as forças da natureza, escolhendo o cultivo de alimentos livre da exploração, com consciência ecológica e social. Todo investimento em alimentos orgânicos, de agricultura familiar, de reforma agrária, de animais livres de sofrimento, que preservam as sementes ancestrais presenteadas a humanidade para nosso pleno desenvolvimento físico, mental, emocional, espiritual, é um ritual de comunhão com o divino. Tudo que precisamos é celebrar, tornar consciente a escolha cotidiana, para que se revele o mistério do asé preservado por escolas de mistérios ao longo de eras.
Muitos de nós, seres sensíveis que se dedicam à arte e à cura, carregamos um nó antigo: uma contração na hora de receber. Sentimos a desigualdade do mundo com clareza que dói — e essa sensibilidade às vezes se volta contra nós. Como se prosperar fosse trair quem sofre. Porque o individualismo da sociedade patriarcal de fato nos adoece espiritual e financeiramente. Porque numa aldeia, onde nos reconhecemos parte de um mesmo povo, compartilhamos aquilo que transborda nossas necessidades individuais porque sabemos que o nosso bem estar é interdependente. Estamos despertando para o fato de que somos um só povo, filhas da terra, em nossa diversidade, todos bebemos água, respiramos ar e nos alimentamos de sementes. O fato é que quando destinamos conscientemente o que passa por nós, o receber se transmuta: deixamos de ser acumuladores e nos tornamos canais. Nossa abundância individual não contradiz a justiça coletiva — ela é condição para que possamos sustentá-la com consistência.
Quem sentir a verdade desse manifesto é convidado a aplicar essa tecnologia de integração espiritual a matéria e receber os alinhamentos de propósito, e consequente prosperidade, geradas por essa mudança de paradigma. A aplicação da tecnologia da oferenda deve ser continua, idealmente mensal — 3, 5%, 10% do seu lucro — que pode ser dedicada ao Altar da Terra que distribui aos guardiões da biodiversidade ou a criação de um altar que honre os guardiões da vida que já tocaram seu coração, que fazem trabalhos legítimos de impacto sócio ambiental e que precisam de apoio concreto, continuo, para fazer o trabalho de cuidado que é de responsabilidade coletiva.
eARTh Escola da Terra — é uma comunidade de aprendizagem nas artes da cura. É o reconhecimento de que todos esses movimentos são o mesmo amor se expressando na sua diversidade. Apoiados nos ombros dos nossos ancestrais, nos tornamos os ancestrais do futuro — unidos pela preservação da vida, pela reverência à inocência da natureza.
Asé-ooo.